"Frete grátis" é talvez a frase mais poderosa do e-commerce brasileiro — e uma das que mais quebram loja pequena quando usada sem conta. Não estamos contra a ideia. Estamos a favor de saber quanto você paga por cada clique a mais e se esse clique vira pedido com margem positiva.
Por que todo mundo promete
Estudos de comportamento de compra mostram há anos que o custo de envio aparece tarde no funil e surpreende. Eliminar essa surpresa aumenta conversão. Marketplaces reforçaram o hábito: o consumidor compara ofertas já com frete embutido ou zerado. Loja independente que mostra frete alto no checkout perde carrinho.
O problema é escala. Grande varejo negocia contrato, concentra volume e dilui custo logístico. Você, despachando quarenta pacotes por mês, não tem o mesmo poder. Copiar o slogan sem a estrutura é onde a história vira prejuízo.
A conta rápida que evita susto
Pegue o ticket médio do pedido e subtraia custo do produto, impostos, taxa de plataforma e embalagem. O que sobra é o teto para subsidiar frete. Se o PAC médio para seu mix de CEPs custa R$ 22 e sobram R$ 18 de margem antes do frete, frete grátis universal é inviável — a menos que você aumente preço de produto o suficiente para cobrir.
Muitos lojistas já embutem parte do frete no preço e ainda assim anunciam "grátis". Isso é legítimo se o preço final for competitivo. O erro é embutir sem calcular e descobrir no extrato que vendeu bem e lucrou pouco.
Frete grátis não é marketing — é decisão de margem com etiqueta bonita.
Modelos que costumam funcionar em PME
- Frete grátis acima de X reais: incentiva cesta maior e concentra subsídio em pedidos que aguentam.
- Grátis só para região próxima: comum em marcas que despacham de uma cidade e dominam o estado.
- Grátis em campanha limitada: Black Friday, lançamento — com orçamento máximo de subsídio definido antes.
- Preço único "já com envio": transparente para quem compra, desde que você monitore concorrência.
O que raramente funciona para loja pequena: frete grátis em tudo, para todo o Brasil, em produto de ticket baixo, com margem apertada e sem integração que otimize modalidade de envio.
Como testar sem queimar caixa
Escolha uma categoria ou região. Rode frete grátis por duas semanas com teto de gasto — por exemplo, "não subsidio mais de R$ 400 no período". Compare taxa de conversão, ticket médio e margem líquida com as duas semanas anteriores.
Observe também devoluções e reclamações. Frete grátis pode atrair comprador impulsivo que desiste na entrega ou pede troca sem critério. Se isso subir, o custo escondido está aí.
Converse com clientes recorrentes, se tiver base pequena mas fiel. Às vezes frete grátis não é o que falta — é prazo confiável ou embalagem que chega intacta.
Antes de ligar a promessa, tenha claro como calcula frete e qual serviço usa — PAC ou SEDEX muda o custo do subsídio. Frete grátis com SEDEX involuntário (porque o PAC atrasou e você refez envio) é clássico que destrói teste bem planejado.